Brasil
O perigo das apostas na palma da mão: como as bets estão dominando os jovens
O avanço do vício em jogos online entre adolescentes acende o alerta de especialistas para os riscos de endividamento, impactos na saúde mental e interrupção dos estudos.
Brasil - A cena dentro da irmandade Jogadores Anônimos mudou bastante nos últimos tempos. Se antes o perfil do frequentador era outro, hoje o grupo de apoio recebe cada vez mais adolescentes pedindo socorro para tentar travar a dependência de bets.
Luiz Carlos*, de 71 anos, frequenta o grupo e conta que a busca por ajuda começa muito cedo. Segundo ele, não é raro ver garotos de apenas 14 anos batendo na porta do acolhimento — às vezes acompanhados até pelo psiquiatra —, além de jovens na faixa dos 15, 16, 20 e 30 anos.
Um desses relatos é o do Gustavo Pereira, de 24 anos. Ele começou a fazer apostas online quando tinha 18 anos e viveu seis anos de puro pesadelo por causa do vício. Nesse tempo, a compulsão por bets fez ele perder nada menos que meio milhão de reais.
"Ganhava muito bem na época, já fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil, já fiz bancas inimagináveis... e perdi tudo. O dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro. Na minha conta não tinha todo aquele valor, mas lá na bet tinha, e o vício faz isso, te enche de ganância."
Hoje, Gustavo está há cerca de dois meses sem apostar. Para tentar recomeçar do zero e evitar recaídas, ele vende café nas ruas de Lages (SC) e compartilha sua rotina de superação no Instagram. Ele lembra que dormia e acordava pensando em jogo, enfrentou a depressão e a síndrome do pânico, mas se apegou à fé e à família para mudar de vida.
Por que o jovem cai tão fácil na armadilha?
Especialistas alertam que a facilidade de acessar os jogos diretamente no celular escancara as portas para a exposição de jovens às apostas.
No mundo: Dados do Unicef mostram que 1 em cada 5 pessoas faz a primeira aposta em jogos online até os 11 anos. A partir dos 12 anos, esse número dispara para 78%.
No Brasil: Uma pesquisa divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação revealed que 9,5% de alunos do ensino fundamental e médio apostaram pela primeira vez aos 11 anos. No 3º ano do ensino médio, quase metade dos estudantes já fez alguma aposta.
Canal infantil: Estudo do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) aponta que canais voltados para crianças usam a falta de maturidade financeira da garotada para empurrar apostas ilegais.
A explicação para isso também está na ciência. A psicóloga Mariana Kehl pontua que o cérebro do jovem ainda está em fase de formação:
O resultado dessa conta? O adolescente sente uma descarga enorme de prazer ao ganhar uma aposta, mas ainda não tem a "trava" cerebral necessária para conter o impulso da aposta seguinte.
Do "cassino no bolso" ao rombo no orçamento
Na década de 1980, quando Luiz Carlos se viciou em máquinas de videopôquer, a realidade era bem diferente: ele precisava sair de casa para jogar. Ele relata que saía de madrugada chorando e socando o painel do carro, prometendo parar, mas voltava no dia seguinte.
Hoje, com os celulares, o cenário é pior: as pessoas carregam um "cassino dentro do bolso".
A facilidade da palma da mão levou ao avanço do vício em gente de todas as idades — como Rogério* (53),
Rodrigo* (47) e Carla Xavier* (41), que também buscam a abstinência no Jogadores Anônimos. Carla ressalta que quem chega ao grupo geralmente já perdeu tudo, está atolado em dívidas e sem chão, cenário agravado pelo boom das plataformas virtuais.
O impacto financeiro e social é gigante:
Indicador | Dado / Impacto |
Apostadores no Brasil (2024) | Pelo menos 24 milhões de pessoas. |
Endividamento | Quase metade dos apostadores ficou no vermelho. |
Visão do Negócio | O IBICT reforça: aposta não é investimento, é gasto. Tira dinheiro do aluguel, comida e roupas. |
Saúde Mental | Casos graves geram risco de ideação suicida por causa das dívidas. |
Ensino Superior (ABMES) | 34% deixaram de investir em faculdade, cursos ou idiomas por causa das bets. 14% dos universitários atrasaram mensalidade ou trancaram a faculdade pelos mesmos gastos. |
Regras mais duras e o ECA Digital
Para conter a farra dos sites de apostas e proteger os menores, entrou em vigor a atualização do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), também chamada de Lei Felca.
A lei trouxe mudanças importantes para o ambiente virtual:
Fim do "Clique Fácil": Acabou a palhaçada de apenas clicar em "Sou maior de 18 anos". Agora as plataformas precisam usar mecanismos reais e confiáveis de aferição de idade.
Supervisão dos Pais: Menores de 16 anos só podem ter redes sociais vinculadas aos pais, e a lei exige ferramentas para o controle parental e fiscalização das atividades dos filhos.
Proibição de Loot Boxes: Ficam proibidas as caixas pagas com prêmios surpresa em games, que funcionam como jogos de azar.
Fim da Publicidade Velada: Influenciadores mirins estão proibidos de fazer propaganda disfarçada.
A psicóloga Mariana Kehl lembra que os anúncios feitos por influencers são perigosíssimos: o jovem não enxerga a publicação como um comercial comum, mas sim como uma recomendação de alguém de confiança, abaixando a guarda e caindo na armadilha.
Como destaca a advogada Luana Mendes, o papel dos pais não é só proibir, mas praticar a educação digital e criar um canal de confiança com os filhos. Já o advogado Felipe Moreira conclui que a lei existe e é boa, mas depende da fiscalização firme do Poder Público e da responsabilidade real das empresas de tecnologia para funcionar na prática.