Birigui
Crise da Santa Casa: Autoridades contestam vice-prefeito e descartam ligação com a Operação Raio-X
Autoridades contestam fala de vice-prefeito e negam ligação da Operação Raio-X com crise da Santa Casa de Birigui
Birigui - Ouvidos pela reportagem, representantes do Ministério Público e da Polícia Civil rebateram o vice-prefeito de Birigui, Marcelo Parizati (PSD), que associou a crise da Santa Casa à Operação Raio-X. As autoridades esclareceram que a operação nunca bloqueou recursos do hospital e, na verdade, atuou justamente para estancar o desvio de dinheiro público na instituição.
A declaração de Parizati foi feita na última segunda-feira (15), durante depoimento à Comissão Especial de Inquérito (CEI) que apura possíveis irregularidades em um contrato firmado pela direção da Santa Casa com uma empresa médica sem licitação e com valor superior ao contrato anterior.
Durante o depoimento, o vice-prefeito afirmou que a Santa Casa teria perdido credibilidade após ganhar repercussão nacional por conta do escândalo investigado pela Operação Raio-X. Ele também questionou decisões judiciais que, segundo ele, teriam bloqueado recursos destinados ao hospital.
No entanto, uma das fontes consultadas pela reportagem classificou essa versão como "fake news". Segundo ela, não existe qualquer bloqueio de dinheiro da Santa Casa de Birigui relacionado à Operação Raio-X.
De acordo com a autoridade, os bloqueios determinados pela Justiça atingiram apenas bens e valores de investigados e condenados nas ações decorrentes da operação. Já eventuais bloqueios enfrentados pelo hospital seriam resultado de ações trabalhistas julgadas pela Justiça do Trabalho.
Outra autoridade reforçou o posicionamento e afirmou que a Operação Raio-X trouxe benefícios para a Santa Casa ao desmontar um esquema criminoso que utilizava a instituição para desviar recursos públicos da Saúde.
Segundo essa fonte, parte dos valores recuperados por meio do bloqueio de bens dos condenados deverá retornar aos cofres públicos dos municípios prejudicados pelas fraudes. Alguns recursos já estariam depositados em contas judiciais e também foram realizados leilões de bens apreendidos.
As autoridades destacaram ainda que, em janeiro de 2021, a Polícia Civil de Araçatuba entregou à Prefeitura de Birigui um ônibus e uma carreta de atendimento itinerante de saúde apreendidos durante a Operação Raio-X. A medida foi autorizada pela Justiça para que os veículos, que estavam sem uso, pudessem atender a população em um período de dificuldades na área da saúde.
Na época, foi informado que apenas os equipamentos instalados nos veículos, incluindo aparelhos de ultrassom e um mamógrafo, estavam avaliados em mais de R$ 1 milhão. No início da atual gestão municipal, em janeiro de 2025, os veículos permaneciam parados no pátio da Prefeitura.
Operação investigou desvio milionário na Saúde
Deflagrada em setembro de 2020 pela Polícia Civil de Araçatuba em parceria com o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), a Operação Raio-X investigou um esquema que teria desviado cerca de R$ 500 milhões de recursos públicos da Saúde.
Apontado como líder do grupo, o médico anestesista Cleudson Garcia Montali foi condenado em processos que tramitaram nas comarcas de Birigui e Penápolis. Atualmente, ele cumpre prisão domiciliar em Brasília.
Durante depoimento prestado à CPI das Quarteirizações da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Cleudson confirmou que era responsável pelos projetos de gestão das Organizações Sociais de Saúde (OSSs) investigadas pela operação.
Entre elas estava a OSS Santa Casa de Misericórdia de Birigui, que administrava serviços de saúde em Birigui, Araçatuba e Penápolis. O então presidente da entidade, Cláudio Castelão Lopes, também foi condenado e segue preso.
Condenações e devolução de recursos
Além das penas de prisão, a Justiça determinou o pagamento de indenizações milionárias aos cofres públicos. Em Birigui, Cleudson foi condenado a ressarcir a Prefeitura em R$ 400 mil, enquanto Lauro Henrique Fusco Marinho deverá devolver mais de R$ 3,2 milhões.
Os dois também foram condenados a restituir ao Estado de São Paulo cerca de R$ 937 mil referentes à participação em um avião adquirido com recursos investigados. A Justiça ainda decretou a perda de uma fazenda avaliada em aproximadamente R$ 7 milhões.
Já em outra ação, o ex-presidente da OSS foi condenado a indenizar a Prefeitura de Birigui em mais de R$ 881 mil. Somados aos valores atribuídos a outros réus, o montante ultrapassa R$ 3,9 milhões.
Em Penápolis, a sentença determinou que Cleudson devolvesse quase R$ 948 mil ao município. Também foram confiscados imóveis, veículos, depósitos bancários e dois ônibus apontados como adquiridos com dinheiro desviado. Outros seis réus foram condenados a indenizar a cidade, totalizando aproximadamente R$ 2,8 milhões.